✧Então Jó respondeu: ✧2“Ah! Se a minha queixa, de fato, pudesse ser pesada, e contra ela, numa balança, se pusesse a minha miséria, ✧3esta, na verdade, pesaria mais que a areia dos mares. Por isso é que as minhas palavras foram precipitadas. ✧4Porque as flechas do Todo-Poderoso estão cravadas em mim, e o meu espírito sorve o veneno delas; os terrores de Deus se armam contra mim. ✧5Será que o jumento selvagem zurra quando está junto à relva? Ou será que o boi berra junto ao seu pasto? ✧6Pode-se comer sem sal o que é insípido? Ou haverá sabor na clara do ovo? ✧7Aquilo que a minha alma recusava tocar, isso é agora a minha comida repugnante.” ✧8“Quem dera que se cumprisse o meu pedido, e que Deus me concedesse o que desejo! ✧9Que fosse do agrado de Deus esmagar-me, que soltasse a sua mão e acabasse comigo! ✧10Isto ainda seria a minha consolação, e eu saltaria de contente na minha dor, que é implacável; porque não tenho negado as palavras do Santo. ✧11Por que esperar, se já não tenho forças? Por que prolongar a vida, se o meu fim é certo? ✧12Por acaso a minha força é a força da pedra? Ou é de bronze a minha carne? ✧13Não encontro socorro em mim mesmo; foram afastados de mim os meus recursos.” ✧14“Ao aflito deve o amigo mostrar compaixão, mesmo ao que abandonou o temor do Todo-Poderoso. ✧15Meus irmãos me enganaram; são como um ribeiro, como a torrente que transborda no vale, ✧16turvada com o gelo e com a neve que nela se esconde, ✧17torrente que seca quando o tempo aquece, e que no calor desaparece do seu lugar. ✧18As caravanas se desviam dos seus caminhos, sobem para lugares desolados e perecem. ✧19As caravanas de Temá procuram essa torrente, os viajantes de Sabá por ela suspiram. ✧20Ficam envergonhados por terem confiado; quando chegam ali, ficam decepcionados. ✧21Assim também vocês não me ajudaram em nada; veem os meus males e ficam com medo. ✧22Por acaso pedi que me dessem recompensa? Ou que da riqueza de vocês me trouxessem algum presente? ✧23Será que pedi que me livrassem do poder do opressor? Ou que me resgatassem das mãos dos tiranos?” ✧24“Ensinem-me, e eu me calarei; mostrem-me em que tenho errado. ✧25Como são persuasivas as palavras retas! Mas o que é que a repreensão de vocês repreende? ✧26Por acaso vocês pensam em reprovar as minhas palavras, ditas por um desesperado ao vento? ✧27Até sobre um órfão vocês lançariam sortes e seriam capazes de vender um amigo! ✧28Agora, pois, tenham a bondade de olhar para mim e vejam que não estou mentindo na cara de vocês. ✧29Por favor, mudem de parecer, e que não haja injustiça; mudem de parecer, e a justiça da minha causa triunfará. ✧30Há iniquidade em meus lábios? Será que a minha boca não consegue discernir coisas perniciosas?”